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Numa época de diversidade de estilos e expressão pessoal, já há tempos encaro o ato de VIAJAR como uma oportunidade de exercício do crescimento individual. Deixando de lado a escolha por destinos massificados, e sendo possível optar pelo mix singular de aventura e planejamento, este pode ser o estímulo de uma experiência que transforma. Talvez a verdadeira sabedoria não seja ser seletivo mas sim aprimorar o talento para identificar o que tem valor efetivo para cada um de nós. Um dos objetivos do LIFE-STYLE é divulgar opções – mesmo que destinos de viagem – ainda pouco conhecidas pela maioria.

Interessado na autenticidade de destinos mais remotos, e menos populares, compartilho aqui a recente experiência de 15 dias numa ilha tão multi facetada (como pouco falada) do Mediterrâneo – a CÓRSEGA.

Indicação de uma amiga jornalista de Paris, apaixonada pelo marco de destino inóspito dessa ilha ao sul da Riviera Francesa e a oesta da costa italiana, a Córsega (ou Corsica, no dialeto corso – um mix de italiano, francês, latim) se diferencia de outras ilhas do Mediterrâneo por sua história de invasões, fama nacionalista, cultura multifacetada, rica herança cultural e cenários paradisíacos. Quarta maior ilha do Mediterrâneo (depois da Sicília, Sardegna e Chipre) seus 8.681 kms são impossíveis de serem conhecidos em uma só viagem. O melhor é priorizar. Começar uma pesquisa alguns meses antes da viagem é fundamental para, aos poucos, ganhar intimidade com o local, saber onde ir, onde ficar e como tirar o melhor proveito de tanto para ver e sentir…

A cidade medieval de Bonifácio impressiona pendurada nas falésias de calcário.

HISTÓRIA

Segundo os historiadores, os primeiros habitantes da ilha vieram do norte da Itália no 7o. milênio antes de Cristo. A posição estratégica da ilha no Mar Mediterrâneo, sua formação geográfica com baias protegidas, montanhas resguardadas e fácil acesso pelo mar, favoreceram desde sempre o interesse comercial nesta ilha por variadas forças colonizadoras. Gregos, cartagenos, romanos, chegaram em ondas sucetivas pela costa oriental, forçando a fuga dos locais para as cadeias de montanhas no centro da ilha (a mais alta delas Monte Cintu tem 2710 ms).

Por volta do século V, os romanos foram expulsos pelos Vândalos vindos do norte da Europa.

Pelos próximos 13 séculos a ilha foi atacada, colonizada, abandonada, numa história de disputas e de gerações de habitantes lutando por independência.

Em 1700, a ilha pertencia ao reinado de Gênova, que a explorava com elevadas taxas alfandegárias. Em 1755, depois de muita luta, PASCAL PAOLI, um militante nacionalista, lidera a rebelião que vai unir cidades estratégicas por toda a ilha. Paoli proclama a independência da Córsega. Recebe também o crédito por criar a primeira constituição de um estado iluminista independente, reconhecendo o poder de voto a estrangeiros e a divisão de poderes (modelo que servirá de base para a redação da constituição dos Estados Unidos). Paoli fica a frente da Córsega independente de 1755 a 1769.

Estátua de Pacal PAOLI na praça principal  na cidade de Corte, que serviu de capital da ilha independente entre 1755 e 1769.

Neste período ele lidera a retomada de valores culturais da ilha, inaugurando a primeira unviersidade da Córsega em Corte, cidade do interior nas montanhas, onde instaura a capital do país. Em 1769 os franceses, mesmo sem interferirem, olham para a ilha como ponto estratégico de seus interesses no Mediterrâneo. Ao mesmo tempo recebem de Gênova a garantia da ilha como pagamento de suas dívidas. A França então vê a oportunidade que aguardava e finalmente anexa, depois de uma luta ferrenha, a ilha para seu território.

Napoleão Bonaparte, nascido em Ajaccio, nasce no ano da anexação da ilha pela França. Nascido em família militar abastada, é cedo enviado para terminar estudos na academia militar francesa.  Mesmo lembrado como cidadão corso, ele é visto ainda hoje com mágoa pelos compatriotas nacionalistas, já que  sempre se posicionou a favor da anexação da ilha pela França.

Monumento na praça central de Ajaccio homenageia seu filho ilustre – Napoleão Bonaparte, nasceu na cidade em 15 de agosto de 1769, em família de ascendência da nobreza italiana.

No século XX, durante a primeira Grande Guerra, a Córsega foi ocupada pelos italianos de Mussolini, sendo expulsos pelos franceses no fim da 2a. Guerra Mundial. Nos anos seguintes, a França cumpre com investimentos na ilha para efeito da indústria turística local. Mas o passado de revoltas e desconfiança só fez aumentar o medo da invasão e apropriação de terras por não corsos. Em paralelo a independência da Argelia em 1962, a ilha foi invadida por milhares “pieds-noirs”, refugiados da ex-colônia, piorando ainda as relações de políticos locais e a França.

Os anos 60 e 70, locais descontentes com a política ineficaz de Paris em lidar com o declínio econômico, leis protecionistas do governo contra investimentos de conglomerados turísticos, somado ao ressurgimento nacionalista da era de Pascal Paoli para valorização da cultura local, uma série de bombardeios e atentados contra sedes governamentais francesas ajudaram a consolidar a má reputação dos habitantes da ilha em relação ao estrangeiro.

Grafites como esses estão por todas as partes nas estradas da ilha. Eles evidenciam a rebeldia em relação ao idioma francês e a valorização do dialeto corso, hoje ensinado nas escolas como segunda língua oficial da ilha.

Nos anos 80, os atentados criminosos afugentaram investimentos e promovem o atraso econômico. É hora de partidos locais e a própria população ver com maus olhos a solicitação de independência dos grupos nacionalistas.

Hoje, grupos ainda lutam para o relaxamento de rígidas leis protecionistas que regulamentam o uso de terras, uma das razões da ilha não ter um serviço hoteleiro digno das belezas e reservas naturais que possue. Mesmo assim,  turismo e  serviços relacionados do comércio, representam hoje 10 a 12% da economia da ilha, principalmente nos meses de julho a setembro.

Mesmo com pouca estrutura e intocadas pelas cadeias hoteleiras multinacionais, como Santa Giulia (uma das mais bonitas da ilha)  atraem os 2 milhões de turistas que visitam a  Córsega anualmente (2/3 destes concentrados entre julho e agosto!).

Atualmente, nos meses de inverno, a evasão de milhares para o continente em busca de trabalho temporário sinaliza os tempos difíceis. A verdade é que a Córsica produz muito pouco para sua subsistência interna, sendo a ajuda que vem da França e da Unidade Européia ainda fundamentais fontes para o equilíbrio econômico da ilha. Mesmo assim, ironicamente, a própria falta de investimentos e atenção, pode ser a principal razão da ilha ainda manter recursos naturais intocáveis. Tudo isso faz com que a especulação imobiliária e o turismo desenfreado, de alguma forma, seja direcionado para outras ilhas do Mediterrâneo.

Conversando com a população local, é fácil perceber o orgulho que a geração mais velha tem de suas origens e cultura milenar. O dialeto corso, que até dois séculos era proibido pelos franceses, hoje é ensinado nas escolas como a segunda língua oficial da ilha, depois do francês.

Conversando com senhoras feirantes do mercado municipal de Ile Rousse é a melhor forma para conhecer a história que NÃO está nos guias de turismo,,, um presente memorável desta viagem!

Durante 15 dias, visitei a Córsega como se estivesse de fato visitando um PAÍS, tão diverso e belo quanto a sua história, com um futuro ainda incerto pela frente. Mas indiferente de sua ligação conturbada com a França, para mim ficou longe a fama de habitantes rudes ou avessos a visitantes estrangeiros… do contato com os habitantes ( o mais importante dos contatos!), só percebi a receptividade, o orgulho de manter um passo de vida ainda lento e arraigado nas raízes… uma riqueza cultural independente, herança apaixonada, autêntica, rústica, incomum  e nada interessante se você busca globalização ou  jet set internacional.. a vontade de não ir embora da Córsega conquista pela sofisticação e pelo luxo da AUTENTICIDADE do por do sol que colore de vermelho as rochas de calcário banhadas pelo mar cristalino, pela gastronomia de temperos de maquis (aroma adocicado da vegetação que está por toda ilha) e do sorriso de sua gente que não esconde o orgulho de uma identidade multi cultural, produto da herança dos vários povos que por alí passaram.

Quando a energia é boa, uma viagem traz lindas supresas… durante a estada em Ile Rousse, fomos saudados pelo Carnaval da cidade com direito `a puxadora de samba.. soubemos que a ‘escola’ recebe a formação de mestres da Timbalada baiana… Coincidência?? Não, SINTONIA !

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